A história de Goiás está ligada à tradição de acolher migrantes. Foi de São Paulo que saíram os bandeirantes que desbravaram todo o Centro-Oeste e instalaram lá as primeiras vilas e estradas. Nos anos 60 e 70, como resultado das políticas de expansão da fronteira agrícola e de integração nacional, levas de migrantes de todo o Brasil se estabeleceram no estado.

Ainda hoje, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Goiânia é, ao lado de Brasília, a cidade com maior saldo migratório do país. Isso quer dizer que mais pessoas vão viver nesses municípios do que se mudar deles. Nos últimos anos, em especial, tem crescido a proporção de profissionais qualificados que fazem esse movimento.

Segundo a empresa de recrutamento Michael Page, o número de vagas de gestão no estado cresceu 60% de 2013 a 2014. Uma delas foi preenchida pelo engenheiro-agrônomo Mauricio Barbosa, que deixou a multinacional Monsanto, onde trabalhou por 12 anos, para assumir em Rio Verde, no sudoeste goiano, a posição de diretor de pesquisa da NexSteppe, startup californiana especializada em sementes para a produção de biocombustíveis. “É um cargo de grande exposição, uma excelente oportunidade de crescimento”, diz Mauricio.

Alguns fatores explicam a atração de executivos para o estado. No agronegócio, ocorre a profissionalização de empresas familiares, que têm contratado executivos experientes para posições antes ocupadas pelos donos. Há também um amadurecimento da atividade industrial, intensificada na década de 90, quando muitas indústrias farmacêuticas e automobilísticas aportaram na região.

Em torno delas se instalaram fornecedores de produtos e serviços. “E houve ainda aumento da oferta de serviços para uma população que passou a ter um nível de renda melhor”, diz o economista Marcos Arriel, do Instituto Mauro Borges, órgão da Secretaria de Gestão e Planejamento do governo do estado. De 2002 a 2012, a renda domiciliar per capita em Goiás passou de 569 reais para 896, um aumento de 57,4%, enquanto para todo o país o índice foi de 41,4%.

O estado adota há mais de uma década a política de oferecer incentivos fiscais a empresas que desejem se instalar em seus limites. A Caoa exemplifica essa situação. Dona de mais de 140 concessionárias da sul-co­reana Hyundai, da americana Ford e da japonesa Subaru, a Caoa investiu 1,8 bilhão de reais numa fábrica no polo automotivo de Anápolis para a produção de veículos para a Hyundai.

A unidade, que começou com 200 postos de trabalho, tem hoje 1 800 funcionários e passou de um para três modelos fabricados. “Um dos motivos de termos escolhido Goiás foi a posição estratégica do estado, o que facilita nossa distribuição, além dos incentivos fiscais oferecidos”, afirma Mauro Correia, vice-pre­sidente da empresa.

Há ainda empresas que estão transferindo suas operações para o estado. Uma delas é a Hypermarcas, dona de marcas como Adocyl, Monange e ­Bozzano, que, desde 2011, transferiu cerca de 20 unidades produtivas espalhadas pelo Brasil para as cidades goianas de Anápolis, Senador Canedo e Aparecida de Goiânia.

Na esteira desse processo surgem oportunidades em funções para as quais não há grande oferta de mão de obra no estado. Foi assim que o paulista Jayvison Amorim da Silva, de 34 anos, deixou sua terra natal para assumir, há sete meses, o posto de gerente de processos e projetos logísticos da Hypermarcas.

A possibilidade de trabalhar na maior fabricante brasileira de bens de consumo não duráveis e medicamentos e um aumento de 15% pesaram na decisão de deixar São Paulo. “A motivação veio do desafio de montar a área e da possibilidade de mais visibilidade profissional”, afirma. Quem também transferiu suas atividades para o estado foi a Stemac, que produz grupos geradores de energia (usados em hospitais e shopping centers, por exemplo).

A empresa deixou Porto Alegre para se instalar em Itumbiara, na divisa de Goiás com Minas Gerais. A fábrica foi aberta há um ano e fica 100% pronta neste mês de dezembro. Entre os 600 empregados, há 50 gaúchos, vindos da antiga sede, que ocupam cargos técnicos e de liderança. “Para atraí-los, fizemos um plano de transição que inclui desde ajuda de custo para moradia e viagens até aumento salarial”, diz Valdo Marques, diretor administrativo da Stemac.

O investimento na região também aumenta a exigência por perfis mais qualificados. No caso das multinacionais, a falta de pessoas com fluência em inglês é um problema frequente. Um levantamento da empresa de recrutamento Asap mostra que apenas 15% dos candidatos locais dominam o idioma. “A solução é trazer gente de fora”, diz Leonardo Massuda, diretor associado da Asap.

Angela Bulotas, diretora de recursos humanos da Panpharma, fabricante goiana de medicamentos que desde 2012 pertence ao grupo alemão Celesio, teve de buscar profissionais de outros estados por causa disso. “Tivemos demandas na área de TI e foi difícil contratar, porque as vagas exigiam fluência em inglês”, diz.

Um dos escolhidos foi o carioca Angelo Santana, de 34 anos, diretor de TI da Panpharma. Depois de sete anos em São Paulo, Angelo mudou-se para Goiânia em novembro de 2014. “O que me atraiu foi o desafio de montar o escritório de projetos numa empresa de faturamento altíssimo, com quase 4 000 funcionários e que pertence a uma multinacional”, diz Angelo.

Desafios e qualidade de vida

Por causa da demanda, a remuneração na região vem crescendo rápido. De 2012 a 2013, os salários executivos aumentaram 33% em média no Centro-Oeste, ante 5% no Sudeste. Ao lado da qualidade de vida, a oportunidade de trabalhar com mais autonomia é um dos itens que mais atraem profissionais para Goiás.

No Grupo GSA, indústria alimentícia instalada em Aparecida de Goiânia, quatro dos cinco principais executivos são de fora: um de Minas Gerais, dois de São Paulo e outro do Paraná. Dois deles se mudaram para Goiás entre 2013 e 2014.

Para o mineiro Victor Leal, de 33 anos, diretor administrativo e financeiro do grupo, atuar num mercado em expansão facilita o crescimento profissional. “Vim para ­Goiânia como gerente e hoje sou diretor”, afirma. “Há mais possibilidades de evolução de carreira do que ocorre nas empresas do Sudeste”, diz. Uma boa oportunidade para gente com disposição para empurrar, e não apenas desfrutar, o desenvolvimento econômico da região

 

Fonte: Exame